A relação entre qualidade de vida e espiritualidade – Um olhar sobre a vida

“A relação entre qualidade de vida e espiritualidade” é um artigo de Cristina Rezende Carvalho Castilho – Psicóloga e Especialista em Análise do Comportamento.

Certo dia estava caminhando por uma das principais avenidas de Belo Horizonte enquanto refletia sobre a condição do ser humano na atualidade. Vivemos no tempo da tecnologia sofisticada e com todas as consequências que isso acarreta: de um lado desenvolvimento, globalização, conforto, dinamismo, intelectualidade, e uma série de outros fatores que possibilitam crescimento e renovação, principalmente no que diz respeito às aquisições e ao consumo. Isso acaba por ditar um ritmo de vida acelerado. De outro lado, voltando para o ser humano, na competitividade capitalista, percebe-se o individualismo, o vazio que, por vezes, tornam os objetivos sem sentido para a própria pessoa. Observamos, então, o crescimento da depressão, dos transtornos de ansiedade, o estresse, a solidão, que motivam muitos indivíduos a buscarem alternativas que satisfaçam necessidades para além dos objetivos estritamente materiais.

O ser humano busca bem estar emocional, psíquico e social. Equalizar os anseios internos, as possibilidades orgânicas do corpo e as demandas externas tornou-se um grande desafio para assegurar um mínimo de qualidade de vida. Nunca o antagonismo entre o Ser e o Ter gritou tão alto na intimidade de muitos indivíduos. Para alguns o Ser tornou-se a consequência do Ter e, após alcançar todas as metas, o Ser continuou vazio, perdido e sem rumo. Nesse momento as reflexões trazem inúmeros questionamentos do que se tem e do que se é. E ao questionar o que se é, defronta-se com várias inabilidades sociais, emocionais e psíquicas. O que antes era considerado qualidade de vida, torna-se uma prisão de consumo, status, poder que, com o tempo, levam a solidão, insatisfações, incompreensões, dúvidas e, por fim, revisão de conceitos e significados.

A revisão de valores pode desencadear a abertura de outra porta, que leva ao conhecimento de outra realidade: a espiritualidade, a busca por algo que transcenda, para o reconhecimento de um ser superior, independente do nome ou característica que ele receba. Aqui precisamos distinguir espiritualidade e religiosidade. Todos os religiosos são espiritualistas na medida em que creem em algo ou alguma coisa que transcende aos sentidos materiais; mas a espiritualidade vai além de conceitos religiosos. É sentir o Divino em si, é a comunhão com a criação do universo e tudo o mais que isso possa despertar em termos de sentimento e de valorização da vida, enquanto ser humano integrado em um todo. A partir desse momento o indivíduo começa a rever pensamentos e comportamentos e, então, como e quais critérios utiliza para a divisão de seu tempo, bem como a qualidade das relações que estabelece consigo mesmo, com o próximo, e, por fim, com a vida e tudo que ela representa. Então, a pessoa passa a reconsiderar valores, anseios e uma infinidade de escolhas como, por exemplo, a analisar o que possui, o que os outros possuem e, principalmente, os que não possuem. Há autores que defendem que o ‘servir ao próximo’ tem sido útil para segurar depressões que poderiam, em tese, culminar em tentativa de suicídio, visto que a ajuda ao próximo possibilita a avaliação de sua própria vida.

De acordo com o modo como a pessoa vivencia a espiritualidade em sua vida, essa pode gerar maturidade emocional e adaptabilidade de muitos comportamentos ao ambiente em que  está inserida. É um convite a flexibilidade diante de acontecimentos, adversidades, diferenças e relacionamentos nos diversos níveis. O indivíduo é projetado a olhar para si mesmo, para o conhecimento de si, para suas potencialidades e limitações; em detrimento do olhar meramente externo e o que o olhar externo espera de si. O grande e sábio filósofo Sócrates dizia que “existe apenas um bem, o saber, e apenas um mal, a ignorância”. E o maior saber é proveniente da busca interior, do conhecimento de nós mesmos e do que cada um representa no conjunto do universo. Qual a colaboração que cada um pode deixar para a continuidade da vida, nem que seja pela sequência do próprio núcleo familiar, na formação de pessoas honestas, dignas, éticas e coerentes com valores e princípios enobrecedores.

Nessa linha o indivíduo começa a questionar sua qualidade de vida. Se a busca desenfreada pelo ter preenche seus anseios ou se há outros aspectos que sejam mais verdadeiros e geradores de felicidade como, por exemplo, ter na lembrança bons momentos. Então, se abre para avaliar em que ponto se encontra e como equilibra vários aspectos que compõem o viver, como: relacionamento familiar, lazer, relacionamento social, relacionamento íntimo, saúde física, emocional, espiritual, intelectual, profissional e também o financeiro.

Cabe assistir o filme, ou melhor, o documentário “Quem Somos Nós”, elaborado por um grupo de PHD’s na área da filosofia, psicologia, física quântica e medicina; em que defendem a teoria de que estamos inseridos em uma dimensão que os nossos cinco sentidos não conseguem se apropriar, mas nem por isso ela deixa de existir e que essa seria a verdadeira realidade, logo pode ser que, o que julgamos ver, não estamos vendo.

Mas, a caminhada está terminando, propositalmente com um gerúndio, pois as reflexões não podem parar. Para alguns, qualidade de vida significa investir em vários aspectos que refletem a vida, para  outros focar em determinado aspecto. Qual está com a razão? Será que há uma razão única? Diante de tantos pensamentos a ciência caminha em busca de uma realidade que transcende aos sentidos humanos e dá a oportunidade de quebrar velhos paradigmas.  Muito ainda está por vir no que diz respeito a espiritualidade e como ela poderá colaborar para uma vida melhor.

Comments

  1. valeria da Mata Mansur

    Parabéns pelo Artigo escrito foi muito importante para minha vida PESSOAL.

  2. Flávia

    Excelente abordagem, muito bem escrita… Realmente os tempos são de reflexão e mudança de olhar, o que exige muita coragem.

  3. Beatriz Martins

    Gostei muito do artigo! Repensar a vida, questão de sobrevivência! Já não dá mais para só TER, temos que ir em busca do SER. PARABÉNS!

  4. Fabiana Rossi

    Artigo de fundamental importância para a sensibilização e o despertar da essência divina que há em nós! A verdadeira busca para a qual o ser foi destinado é reacender esta centelha divina, pelas virtudes, por isso, o Ter não nos contempla!! PARABÉNS pelo estímulo ao sentimento!

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